Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma ideia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. […] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.
―  Clarice Lispector, no livro “Aprendendo a viver”. Rio de Janeiro: Rocco, 2004. (via desvaneiopoetico)

(Source: temploculturaldelfos)


Apr 16 14:43 with 203 notes
O amor bate na aorta. Cantiga de amor sem eira, nem beira, vira o mundo de cabeça para baixo, suspende a saia das mulheres, tira os óculos dos homens. O amor, seja como for, é o amor. Meu bem, não chores, hoje tem filme de Carlito. O amor bate na porta, o amor bate na aorta, fui abrir e me constipei. Cardíaco e melancólico, o amor ronca na horta, entre pés de laranjeira, entre uvas meio verdes e desejos já maduros. Meu amor, não te atormentes. Certos ácidos adoçam a boca murcha dos velhos e quando os dentes não mordem e quando os braços não prendem, o amor faz uma cócega, o amor desenha uma curva, propõe uma geometria. Amor é bicho instruído. Olha: o amor pulou o muro, o amor subiu na árvore em tempo de se estrepar. Pronto, o amor se estrepou. Daqui estou vendo o sangue que corre do corpo andrógino. Essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca, às vezes sara amanhã. Daqui estou vendo o amor irritado, desapontado, mas também vejo outras coisas: vejo beijos que se beijam, ouço mãos que se conversam e que viajam sem mapa. Vejo muitas outras coisas que não ouso compreender.
Carlos Drummond de Andrade.   (via carenciou)

Apr 09 22:04 with 2,135 notes
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